Amizade preta: um vínculo que ajuda na construção de nossa identidade

Essa semana estava acompanhando no Twitter uma discussão sobre como o amor preto também pode se referir à amizade preta e o quanto ela é importante em nosso desenvolvimento pessoal.

Um dos meus privilégios foi ter tido a oportunidade de frequentar bons colégios particulares por toda a minha juventude. A realidade do ensino público no Brasil é precária e sabemos que a maior parcela da população afetada por isso é negra.

Sendo assim, cresci cercada de crianças brancas e posteriormente jovens brancos. Logo minhas amizades seguiram esse padrão por grande parte de minha vida. Isso somente mudou quando, ao chegar à faculdade, entendi o que de fato ser negra significava.

O cenário hostil que nos engole

A invisibilidade da comunidade negra brasileira é um mal o qual até hoje lutamos para combater. Isso era ainda pior anteriormente — cresci sem nenhuma consciência de raça. Eu travava batalhas que nenhuma de minhas amigas compreendia porque elas não as viviam e foi somente depois da maior idade que reconheci essa verdade.

Sabe quando alguém completa a sua história porque viveu algo muito similar? É exatamente à isso que me refiro quando digo que a amizade preta é um vínculo poderoso. Enquanto outros julgam que está exagerando ou inventando ao contar um episódio de sua vivência, uma pessoa negra te reassegura com o mero olhar de que você é compreendida.

Quando crescemos num ambiente que zomba ou desconsidera nossas dores, passamos a acreditar que somos muito fracos ou inadequados porque não cabemos naquela caixa que o mundo que conhecemos diz ser certa. Fingimos que não mais nos afeta e isso não só dá munição para que as humilhações que sofremos passem despercebidas como nos convence de que estamos loucos.

Foto na postagem amizade preta no blog Negra em Movimento.
Foto retirada de Unsplash de autoria de Tyrell Charles.

Amizade preta e segurança

Já falei no Instagram do blog uma vez que por muito tempo eu detestei ir à praia. Tinha vergonha da minha relação com o meu cabelo, que era diferente de minhas companheiras brancas, claramente.

Era um problema na época em que alisava o cabelo (queria ir à água, mas não podia molhá-lo). Foi um problema posteriormente quando usava já o cabelo natural, porque enquanto elas utilizavam uma escovinha simples para pentear os cabelos pós-mergulho, meu processo era outro.

Eu me sentia inadequada porque naquele espaço eu era a diferente, porque um simples ato de pentear o cabelo se tornava um espetáculo de curiosidade. O conceito de raça não é debatido e qualquer tipo de desinformação abre portas para um mundo de preconceitos.

A branquitude, em grande parte, nem ao menos compreende a relação de pessoas negras com os seus cabelos e nem faz questão de compreender. Ao invés, se baseia em perguntas racistas e ofensivas para tentar diminuir a sensação de estranheza pela qual eles são os responsáveis.

Se fôssemos inserir nessa cena uma única mulher negra de cabelo cacheado ou crespo — eu já não sou mais uma estranha no ninho. Através de uma conexão ancestral que passeia entre nós no momento em que nossos olhares se cruzam, entendemos que somos o espaço seguro uma da outra.

Amizade preta e os espaços comuns

Até hoje, quando olho para meu círculo de amigos, confirmo rapidamente que a maioria ainda é branca. Por quê? É bem simples quando fazemos uma análise de que, assim como quando cresci, continuo ocupando espaços que são negados às pessoas negras.

Após passar a juventude inteira estudando em colégios particulares em virtude de bolsas, aos dezoito anos entrei na faculdade pública. De 50 alunos, uns 4 eram negros — incluindo eu; no primeiro semestre, metade da turma debandou, e ao final da faculdade 2 pessoas negras se formavam na minha turma — incluindo eu.

Um novo cálculo vai esclarecer que meu grupo de amigos da faculdade é branco. Continuando, eu me formei em Turismo e fui trabalhar na área.

O setor de turismo? É branco. No meu primeiro estágio eu era a única pessoa negra na equipe — e uma das poucas no hotel. Calculando de novo? Meu grupo de amigos/colegas de trabalho era branco. Isso se repetiu nas próximas empresas e posteriormente no curso de fotografia que fiz (adivinhem só? Acertou, única negra).

É corriqueiro que formemos nossas amizades nos espaços que frequentamos em nosso cotidiano, tanto por praticidade quanto por um denominador comum. E sabe o que acontece quando não conseguimos nos ver nos espaços e nas pessoas que nos cercam? Sentimos que, de fato, somos invisíveis e isso nos enfraquece.

Como o ditado já bem diz, “a união faz a força”, e um grupo de pretos juntos incomoda. Esses espaços historicamente negados à comunidade negra não nos querem por lá. Eles nos toleram, mas um de cada vez, sem muita aglomeração, afinal, estamos cedendo esse lugar para você, não abuse de nossa boa vontade.

Foto de amizade preta no blog Negra em Movimento.
Foto retirada do site Unsplash de autoria de Jessica Felicio.

Brown skin girl: sua pele é como pérolas

O que Beyoncé fez no clipe da música Brown Skin Girl foi não somente um ode à pele negra como se utilizar de referências de outras mulheres negras para solidificar valores. Quando as meninas negras de hoje se dão conta da existência de pessoas como Lupita Nyong’o, elas se sentem vistas — isso é mais do que nós tivemos.

É claro que entre Naomi Campbell e uma menina negra que vive no subúrbio carioca existe um universo de distância. Ainda assim, é mais fácil que essa menina enxergue a possibilidade de um futuro digno para si nos olhos de Naomi do que de Gisele Bündchen.

São essas pessoas que adolescentes negras vão admirar e passar um amontoado de horas imitando em vídeos. São essas pessoas que vão relatar experiências que farão sentido pela primeira vez para aquelas que sempre pensaram que não existia sentido no mundo para elas.

A amizade preta garante que entendamos muitas de nossas experiências como coletivas e dessa sabedoria extraiamos forças para a luta que sempre está por vir. É sempre mais difícil encarar o mundo sozinho. Estar com os nossos, o aquilombar-se, possibilita que estejamos unidos mesmo quando separados por quilômetros de distância.

Para mim, alguém que sempre buscou por rostos iguais em espaços inóspitos para os meus, a internet foi o que pela primeira vez mostrou a rede de aliados da qual eu precisava. E hoje sou muito grata pelos amigos pretos que fiz, ainda a tempo de nos fortalecer juntos.

Foto em destaque retirada do site Bustle.