Amor preto e o afeto que nos foi negado

Foto capa da postagem sobre amor preto no blog Negra em Movimento.

Quando penso em amor preto, me lembro de ser criança e ver pouquíssimas referências de casais pretos na mídia.

Vez ou outra via no TVZ algum clipe da Beyoncé em que sua pele harmonizava com a de seu par.

Até hoje quando ouço a música “Você vai estar na minha” da Negra Li, penso no clipe clássico em que ela cantava sobre um boxeador preto que era lindíssimo.

Quando penso sobre casal preto, me vem à cabeça a voz da gigante Alcione cantando desde lá detrás sobre o “negão de tirar o chapéu”.

Contudo, eram essas as exceções e não as regras. De maneira geral, os poucos pretos retratados na mídia estavam sempre num lugar de serventia ou de marginalidade.

Eram pais ausentes, perigosos ou negligentes. Eram maridos violentos, bêbados ou inúteis. Para o preto, não havia um lugar de afeto, carinho ou felicidade.

Os casais felizes retratados na mídia tinham designação de cor. E por isso, na vida real, os pretos singulares pensavam que não havia um lugar em que pudessem ser par e ser mais.

Amor preto: um caso de afeto

Casais pretos representam que escolhemos sobrepassar a narrativa de violência que afirmaram nos pertencer e escrever nossa própria história, repleta de atos doces. De amargo, bem sabemos, já basta esse cotidiano que o povo vive há séculos.

Nossa pele segue acorrentada a um passado de tortura, resistência e “força”. Escrevem desde essa época que nossa pele não é convite de carinho. É uma pele que querem possuir, usar e depois jogar fora quando não serve mais.

A pele que historicamente significa compromisso, afago e cuidado é alva. Historicamente a pele do preto é a pele que sangra. A sociedade insiste em narrar que as mãos do preto não são aquelas que caminham de mãos dadas pelas ruas, e sim aquelas que ficam algemadas atrás das costas “porque representam perigo”.

Um homem e uma mulher preta, juntos, é uma releitura do que significa amar a nossa pele. Duas mulheres pretas juntas ou dois homens pretos juntos então? É reivindicar uma vida que até mesmo os “moderninhos” julgam não ser direito.

Amor preto é afeto, mas além disso, é direito ao afeto.

Amor preto: um caso de união

Duas pessoas pretas conscientes, quando se relacionam, têm um no outro um abrigo para os dias de tempestade que sabem que virão. Ali, naquele desabafo depois de um dia que mais uma vez foi difícil demais, não encontrarão deboches ou escárnios, e sim apoio.

Não é preciso explicar porque um olhar nocivo lhe fez tão mal porque o outro sabe exatamente como queima na pele. Não há medo de que sua frustração seja lida como vitimismo porque o outro vive as consequências de ser quem é no mesmo mundo que você.

O amor preto é, pura e simplesmente, o significado primário de união. “Nós contra o mundo” nunca fez tanto sentido quanto naquela noite em que viver fora de quatro paredes era doloroso demais e então resolveram se aninhar no quarto que era refúgio.

Amor preto é representatividade sim, mas sobretudo é criar caminhos. É rir de uma piada que não precisa ser dita em voz alta e receber suporte para um choro que não precisa ser explicado.

Enfim é sobre nós, contando a nossa história, construindo a nossa jornada e calando as vozes que passaram tempo de nós falando em nosso lugar.

Aliás, tá aí, amor preto é sobre isso: assumir o nosso lugar.