Dororidade: por um debate de gênero que inclua mulheres negras

Você já ouviu falar em “Dororidade”?

Esse conceito foi criado por Vilma Piedade e nasce da necessidade de narrativas alternativas ao pensamento feminista eurocêntrico único e excludente: que vê a mulher branca instruída de classe média como o centro da opressão de gênero.

Portanto, além da invisibilização que já sofrem em diversas esferas sociais, mulheres pretas também são invisibilizadas por esse discurso que não abriga suas vivências reais.

Um gênero, lutas diversas

Segundo o Atlas da Violência (2020), no ano de 2018, 68% das mulheres assassinadas no Brasil eram negras. Entre 2008 e 2018, enquanto a taxa de homicídio de mulheres não-negras caiu 11,7%, a taxa entre mulheres negras aumentou 12,4%.

Um estudo pela Universidade Federal da Bahia revelou que, em 2017, mulheres negras sofreram 73% dos casos de violência sexual registrados no Brasil, enquanto mulheres brancas foram vítimas de 12,8%.  

Vilma associa essa violência também ao estereótipo racista que acompanha mulheres negras por séculos: a imagem da preta fogosa, lasciva, cujo corpo é feito para o sexo quente.

Nesse sentido, a dororidade fala sobre o silêncio, a ausência, sobre mulheres que foram postas à margem graças à séculos de um racismo estrutural normatizado como parte do que “o mundo é”.

Para a autora, a sororidade só une até certo ponto. Não basta para quem fala de um lugar de ausência, de um não lugar. A dororidade marca a dor causada pelo machismo e o racismo, é um agravo na dor que já existe.

“A sororidade parece não dar conta da nossa pretitude” — Vilma Piedade

A luta originada da dor

Dor-oridade vem de “dor” que a comunidade negra sofreu e sofre. Vem do genocídio da juventude preta, de mães pretas perdendo seus filhos pelas mãos do Estado. É uma dor pautada numa escravidão que deixou marcas que se mascaram por trás de uma “democracia racial”.

Uma pesquisa de 2019 pelo IBGE constatou que no grupo dos 10% mais pobres no país, 75% são negros. Enquanto nos 10% mais ricos, 70,6% são brancos.

E então, em 2020, quando uma empresa de grande porte como a Magazine Luiza cria um programa voltado para jovens negros na busca de diminuir essa enorme desigualdade socioeconômica, tem gente para soltar uma patifaria ignorante como “racismo reverso”.

E a dor vai além… A dor era uma das justificativas usadas na escravidão. A justificativa de que “preto é mais forte para dor”. O estereótipo machista da mulher como “o sexo frágil, delicada, dócil, etc.” se pauta em raça.

Por quê? Porque ninguém vê a mulher preta como delicada ou tenta poupá-la do esforço. A mulher preta até hoje é vista como aquela que aguenta tudo e por isso as estatísticas de violência obstétrica são alarmantes quando relacionados à mulheres negras.

Muitas mulheres relatam ter sofrido muito na hora do parto nas mãos de médicos que diziam que “elas podiam aguentar”. Assim sendo em seu livro, Vilma coloca que dados da ONU revelam que mulheres negras recebem menos anestésicos locais ao parir.

Para Vilma, é sim possível construir um feminismo interseccional inclusivo em um país pautado em democracia racial — mas somente se começarmos a pensar em todos os tons de pretas.

Dororidade é, para mulheres pretas, uma questão de necessidade.