Cultura Negra & Brasil: uma lista de gêneros musicais com influência africana

Gêneros musicais com influência africana no blog Negra em Movimento.

Nosso país é hoje palco de uma mescla de elementos graças à sua origem e a cultura brasileira é em resultado diretamente afetada por outras culturas. Nossa música não é um caso diferente e dentre tantas outras áreas, temos alguns gêneros musicais com influência africana e é sobre eles a postagem de hoje.

Vamos falar sobre características, origens, formatos e popularidade buscando disseminar o quanto o Berço do Mundo continua sendo tão presente em nossas vidas.

Vem comigo?

Afoxé

Origem

O surgimento do Afoxé data do fim do séc. XIX e seu nome é de origem iorubá, grupo étnico da África Ocidental, cujo significado é “a fala que faz”. Seu ritmo é conhecido como ijexá e alguns consideram o gênero como derivado do maracatu, do qual falo mais abaixo.

A manifestação tem uma ligação forte com o Candomblé, é comum que o gênero homenageie um orixá e as melodias entoadas durante os cortejos são as mesmas cantadas nos terreiros afro-brasileiros que seguem a linha ijexá. É um cortejo que faz parte do carnaval, mas não deve ser considerado um bloco carnavalesco.

O Afoxé é mais presente na Bahia, sendo inclusive considerado um patrimônio imaterial do estado pelo IPHAN, mas pode ser visto em outros estados como Pernambuco, Maranhão, Rio de Janeiro e São Paulo.

Gênero musical Afoxé
Fonte: Flickr

Características

Quatro instrumentos básicos compõem o gênero: o afoxé ou agbê, os atabaques, o xequerê e o agogô. A vestimenta utilizada contém as cores dos orixás e as músicas são cantadas por todos na língua iorubá.

Antes do desfile, o padê de Exu é realizado: um ritual em que os membros fazem oferendas a Exu e pedem que ele não interrompa a festa de carnaval. Logo após o ritual, eles tomam as ruas em cortejo.

O grupo baiano Filhos de Gandhy foi fundado na década de 40, é um dos principais do gênero e foi responsável pela popularidade do ritmo pelo país. Eles utilizam turbantes que remetem às vestimentas indianas e colares azul e branco, estes são distribuídos ao longo do cortejo como forma de transmitir paz.

Em seguida no Rio de Janeiro o grupo Filhos de Gandhi surgiu na década de 50 com um propósito parecido. De fato ambos os nomes são uma homenagem ao pacifista indiano Mahatma Gandhi.

Baião

Origem

Surgido na década de 40, o Baião nasceu na Região Nordeste e foi influenciado por uma das modalidades do lundu, estilo musical trazido para o Brasil pelos angolanos.  Seu nome tem associação ao verbo “bailar” e a sonoridade da palavra foi gerada pelos nordestinos partindo da mescla entre as coreografias dos africanos, a cultivadas pelos nativos e a dança na metrópole.

O Baião ganhou impulso com o compositor Luiz Gonzaga, que deu um novo tom ao estilo incorporando características do samba e das congas cubanas e levando a música para o resto do país.

Gênero musical Baião
Fonte: Flickr

Características

Os instrumentos que acompanham o Baião são normalmente a sanfona, o agogô e o triângulo. Os principais passos da coreografia incluem o balanceio, o rodopio, o passo de calcanhar e o passo de ajoelhar e é dançada em pares.

O parceiro é convidado pelo outro com a umbigada, o ato dos parceiros se aproximarem um do outro com gestos sensuais até seus umbigos se encostarem. Em contraste com isto, a única região do país que se destoa é o Sul, onde o parceiro é convidado pelo outro com um estalo de dedos fazendo referência às castanholas.

Geralmente as mulheres se apresentam usando vestidos de chita com babados na saia, decotes e mangas curtas e sandálias coloridas. Já os homens trajam calças claras de brim, camisas e sandálias de couro.

Choro (“Chorinho”)

O Choro ou Chorinho é um estilo musical originado da mistura da música popular portuguesa com aquela consolidada no Brasil pela influência africana e danças de salão europeias. Ele tem influência direta do lundu, o primeiro gênero musical afro-brasileiro popular, e remete à segunda metade do século XIX.

Nascido no Rio de Janeiro, seu nome se dá devido ao caráter lamentoso de sua melodia e os músicos que executam o gênero ficaram conhecidos como chorões. Em contrapartida há ainda outras duas teorias para o nome.

Uma é que ele deriva de “xolo”, uma espécie de baile que reunia negros escravizados e a expressão passou a ser conhecida como “xoro” pela sonoridade parecida entre as palavras; há também quem diga que o nome se dá graças à sensação melancólica dos acordes do violão.

Gênero musical Chorinho
Fonte: Flickr

Características

A flauta, o violão e o cavaquinho formam o trio base para o Chorinho; o pandeiro também é utilizado em algumas composições. Os chorões são versáteis porém, então outros instrumentos como o bandolim, o saxofone e o clarinete podem surgir para executar a melodia.

Joaquim Calado, um flautista de nome na época, é entendido historicamente como um dos músicos que conceberam o Chorinho. Os principais nomes do Choro foram Pixinguinha e Waldir Azevedo, contudo a popularização do gênero se deu graças à Chiquinha Gonzaga.

Atualmente os artistas que se empenham em preservar o Chorinho são exemplos como Paulinho da Viola e Paulo Moura.

Congada

Origem

A Congada é também chamada de Congado ou Congo e é uma manifestação cultural que mistura festas trazidas pelos negros escravizados e a religiosidade cristã do catolicismo praticado pelos portugueses.

Ela surgiu no país na metade do século XVII e sua origem remete ao continente africano, quando os súditos faziam um cortejo aos Reis Congos com o objetivo de agradecer seus governantes.

Ao chegar à colônia, o povo negro se reconheceu na figura de três santos cultuados pela religião cristã: São Benedito, Santa Efigênia e Nossa Senhora do Rosário, todos santos negros e eles costumam ser homenageados nos eventos da Congada. Assim sendo, duas lendas explicam o surgimento da Congada:

História de Chico Rei

A lenda diz que Galanga, nome verdadeiro de Chico Rei, era o monarca de sua tribo no Congo e foi capturado com seu povo. Durante sua travessia para o Brasil, o navio enfrentou uma tempestade e sua filha e esposa teriam sido jogadas ao mar pelos marinheiros para que o mar se acalmasse.

Quando em solo brasileiro, Chico e seu filho teriam sido levados para a região das minas (atual Ouro Preto). Após trabalhar todos os dias, Chico teria conseguido metal suficiente para comprar sua alforria, a de seu filho e de mais de 200 escravos. Estes escravos libertos passaram então a tratá-lo como rei e todos os anos no dia 7 de outubro, acontecia um cortejo onde se honrava Chico Rei.

Aparição de Nossa Senhora

Diz-se que a imagem de Nossa Senhora do Rosário apareceu no mar e vários grupos tentaram buscá-la, cantando e dançando; a santa ficava mais próxima, mas nunca o suficiente.

Por fim o último grupo foi o de Moçambique, composto por negros escravizados que tinham cadeias aos tornozelos; com seus lamentos, eles conseguem levar a imagem até a costa, tornando-se guardiões da Virgem do Rosário junto aos Congadeiros.

Gênero musical Congada
Fonte: Flickr

Características

A Congada é celebrada em todas as regiões do Brasil, geralmente nos meses de maio e outubro quando se consagra a Nossa Senhora, mas não possui dia fixo.

O número de participantes varia de 50 a 200 divididos em aproximadamente cinquenta personagens. Os grupos são separados em dois: a Congada de Cima, composta pela realeza, cacique, fidalgos e crianças e a de Baixo composta por embaixador, secretário, cortejo e guerreiros. Os detalhes podem variar de acordo com a região.

Na dança é apresentada a coroação do rei do Congo, acompanhado de um cortejo, além das lutas entre mouros e cristãos em forma de coreografias. Os instrumentos musicais usados são a cuíca, a caixa, o pandeiro, o reco-reco, o cavaquinho, a viola, o violão, o tarol, o tamborim e alguns outros.

As músicas são cantadas em português e banto, falando sobre o sofrimento de um povo que foi arrancado de sua terra e forçados à escravidão bem como sobre a esperança de que os santos iriam prover uma vida melhor.

Certamente a vestimenta é importante na Congada para representar a hierarquia entre os personagens. Camisas, capas, chapéus, espadas e lenços compõem o conjunto e também fitas e bandeiras coloridas trazendo a imagem dos santos. Ademais joias e coroas são grandes e marcam os soberanos africanos.

Estados como Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná celebram a Congada.

Maracatu

Origem

Com origem em meados do século XVIII, o Maracatu é uma manifestação folclórica que surgiu em Pernambuco a partir da miscigenação das culturas africana, indígena e portuguesa.

Está associado aos Reis Negros (ou Reis do Congo), figura que surgiu para administrar comunidades negras trazidas para o Brasil para serem escravizados e os colonizadores portugueses estimulavam essas homenagens como uma forma de controle.

Os Maracatus (figuras dos Reis) são tradicionalmente ligados à religiosidade e se desenvolveram a partir de uma associação com às irmandades negras do Rosário. Com o tempo foram perdendo força e suas apresentações passaram a se concentrar no Carnaval, principalmente em Recife.

Gênero musical Maracatu
Fonte: Flickr

Características

A música é criada com o som dos instrumentos taol, chocalho, zabumba, tambor, gonguê e ganzá. As coreografias se assemelham às danças do Candomblé, com participantes representando personagens históricos como reis, embaixadores e baianas.

Existem dois tipos de Maracatu:

Maracatu Nação: a expressão mais antiga é também chamada de Baque Virado. É feito em cortejo em que as Calungas (bonecas negras feitas de madeira) são conduzidas pelas damas do paço. Entre 30 e 50 componentes compõem o cortejo. São eles o porta-bandeira ou porta-estandarte, a dama do paço, a corte, o escravo, yabás, batuqueiros, catirinas ou escravas, e a realeza composta por rei e rainha.

Maracatu Rural: ou Baque Solto, seus participantes são sobretudo trabalhadores rurais. Dessa forma seu personagem de destaque é o caboclo de lança, ele se veste com um grande volume de fitas coloridas na cabeça, uma gola de lantejoulas e uma flor branca na boca.

O Maracatu Nação representa o cortejo da corte imperial enquanto o Maracatu Rural alude às brincadeiras dos trabalhadores rurais.

Samba

Origem

Evidentemente o samba diz muito sobre sobre nosso país e sobre nossa nacionalidade e está presente em muitas de nossas manifestações culturais, sobretudo o Carnaval. Inegavelmente o estilo e gênero musical mais popular no Brasil, seu surgimento se deu do fim do século XIX para o XX e há quatro teorias sobre a exata forma que o gênero tenha sido influenciado pelo continente africano:

  1. A palavra “samba” deriva da palavra “bantu”, semba ou umbigo. Na África, aldeias se reuniam em círculo para cantar e dançar. Após a apresentação de cada indivíduo, um novo membro era convidado com a umbigada;
  2. Há quem creia que o “lundu”, uma dança de origem africana, tenha sido transportada por navios negreiros vindos de Angola e esse teria sido o propulsor do samba;
  3. Uma terceira teoria é de que negros escravizados tenham levado uma forma prematura de samba da Bahia para o Rio no século XIX principalmente após a Lei do Ventre Livre em 1871 a Abolição da Escravatura em 1888;
  4. A última teoria é de que o samba é originário da palavra portuguesa rancho.  A primeira organização de um rancho surgiu no início do século XX e circulava em torno do conceito de escola (considerada uma associação de bairro). Afro-brasileiros compunham maior parte dos ranchos e mudaram o nome para “escola de samba”, tendo sido os baianos os criadores dessa organização voltada para a sua recreação. “Ó abre alas” de Chiquinha Gonzaga foi a primeira canção escrita para os ranchos e o novo tipo de música primeiramente chamada de “marcha-rancho” envolvia muita percussão.
Gênero musical Samba
Fonte: Flickr

Características

O samba se caracteriza por uma musical vibrante, um canto responsivo, ênfase na percussão e ritmo sincopado. Em resumo é formulado em 2/4 com estrutura de estrofe e refrão.

O samba desembocou alguns sub-estilos. Eles variam entre samba carnavalesco, samba de gafieira, samba de terreiro, samba-canção, samba enredo, samba exaltação, samba-rural e muitos outros. As variações se distinguem pela velocidade do ritmo e estruturas líricas.

Assim os estilos se desenvolviam de acordo com a comunidade, em resultado instrumentos musicais, padrões rítmicos e composição variavam entre regiões.

Samba e Carnaval

No início do século XX, o bar da Tia Ciata no Rio de Janeiro se tornou o principal ponto de encontro de sambistas vindos de morros e músicos profissionais. Artistas como Pixinguinha, Sinhô e João da Baiana se reuniam no local para compor samba e outros gêneros musicais.

Com a popularidade do samba nacionalmente, os sambistas do Morro de São Carlos desenvolveram a ideia da escola de samba. Em outras palavras membros aprendiam música por meio de integração e participação comunitária através de experiências socio musicais.

Hoje organizar uma escola de samba é um trabalho que envolve muitas pessoas que atuam em diferentes frentes para que o conjunto funcione. Com temas políticos, histórias ou com caráter homenagem, em síntese o samba-enredo é o que sacode a pista pelo período completo em que a Escola desfila.

Bônus: instrumentos musicais

Inegavelmente não existe música sem as ferramentas que a produzem, não é mesmo? E além de gêneros musicais com influência africana, temos também instrumentos musicais que fazem parte do legado do continente africano para o Brasil.

  • Reco-reco: feito de madeira ou bambu com ranhuras transversais friccionados por uma vareta.
  • Tambor: é um instrumento de percussão feito de bambu ou madeira e varia de formato, tamanho e elementos decorativos. Por sua potência sonora, ele também serviu como forma de comunicação entre comunidades distantes.
  • Caxixi: também instrumento de percussão, é um pequeno cesto de palha trançado com sementes ou arroz para a produção do som.
  • Cuíca: é um tipo de tambor com uma haste de madeira presa no centro da membrana de couro.
  • Kora: formado por 21 cordas, possui uma caixa de ressonância feita de cabaça e cordas de pele de antílope. O som que produz é semelhante ao de uma harpa.
  • Afoxé: além de estilo musical, é também um objeto de percussão! É formado por uma cabaça redonda coberta por uma rede de bolinhas.
  • Agogô: um instrumento de percussão composto por campânulas de tamanhos diferentes, conectadas através de vértices.
  • Berimbau: um instrumento de corda muito utilizado na capoeira, é um arco feito de uma vara de madeira e um fio de aço preso em suas extremidades.

Há ainda gêneros que foram influenciados indiretamente como a Bossa Nova e o movimento Tropicália, a MPB e o Manguebeat. Afinal a cultura é resultado de uma mistura que se estende também a outras áreas como a culinária em que falo em outra postagem aqui no blog.

Em suma, existem variados gêneros musicais com influência africana que compuseram e compõem nosso país. E o legado cultural é um patrimônio do qual Brasil é bem rico.

Qual seu estilo musical favorito de origem afro?