IZA: a mulher negra ressignificando o pop brasileiro

Foto capa da postagem sobre IZA no blog Negra em Movimento.

Formada em publicidade, antes de mais nada a cantora carioca de 29 anos IZA ganhou notoriedade através de vídeos que publicava no Youtube. Assim, por meio deles ela homenageava artistas renomados com covers incríveis e autênticos.

Misturando R&B e pop, IZA é reconhecida pelo talento assim como pelo estilo original das músicas que compõe e canta.

Dessa forma, ao se apresentar como uma artista multifacetada, a carioca não só conquistou um lugar para si mesma como reinvindicou o destaque ao qual mulheres negras sempre foram negadas.

Certamente já vejo pelo seu nome artístico ser todo em maiúsculo a intenção de ser um grande chamado. É uma afirmação de que é um nome a ser lembrado e que veio não só para ficar, como também para causar.

Sua jornada para o sucesso

IZA conta que quando trabalhava com publicidade se sentia incompetente, porque reconhecia que não estava dando tudo de si, ainda que não entendesse ainda o porquê. Isso fala diretamente comigo, já que desde o primeiro emprego nunca me encaixei no modelo de trabalho tradicional: 8 às 17h, segunda à sexta, escritório.

Inegavelmente muitas também irão se identificar. Ela canta desde os seus 6 anos de idade e assim também vem de uma família muito engajada musicalmente. Ainda assim, demorou a enxergar a música como uma opção viável de carreira.

Ela lutava bastante com a insegurança porque não sabia se era boa o suficiente para seguir aquele caminho. Assim como ela mesma diz em seu vlog, ainda bem que superamos medos que nos impedem de crescer.

Antes de tudo, os covers que fizeram com que ela fosse notada eram em sua maioria em inglês. Ela conta que sua paixão pelo R&B americano aconteceu porque em sua infância ela perdeu seus CDs brasileiros em uma enchente, assim começou a ouvir os CDs que pertenciam a seu pai para se distrair.

A princípio as grandes inspirações musicais da cantora são Beyoncé, Rihanna, Stevie Wonder, Lauryn Hill, Diana Ross, Michael Jackson e Tina Turner. Similarmente no Brasil, ela se inspira em Liniker, Emicida e Elza Soares.

Foto retirada do Instagram da cantora IZA (com mulheres negras que participaram do clipe da música Esse brilho é meu).

De mulher para mulher

Suas músicas dissertam sobre relacionamentos, aceitação, autoconfiança e coragem. Além disso, o que inegavelmente gosto em suas composições é como ela dá alfinetadas em meio à energia descontraída do pop.

Exemplificando, isso acontece em Quem sabe sou eu e Esse brilho é Meu. Afirma que ser mulher é se preocupar com a roupa que irá usar ao sair. Não por obrigatoriamente por vaidade, mas por prezar pela segurança.

O que faz “está condicionado a como o outro vai reagir” e isso é tão cruel quanto verdadeiro. Complementa que uma mulher precisa se precaver com o que vai falar para não ser taxada como rude ou mandona e diz desgostar de músicas que incentivam a rivalidade feminina.

“Eu sei que o meu corpo te incomoda

Sinto muito, o azar é seu

Abre o olho, eu tô na moda

E quem manda em mim sou eu”

— Quem sabe sou eu

Ela não enxergava sua própria beleza, sendo vítima do racismo velado que nos assombra diariamente. Quando ficou em penúltimo lugar na famigerada lista das “garotas mais bonitas da sala” no colégio, sentiu-se de fato importante pela primeira vez.

Essa lista popular para mulheres que nasceram nos anos 90 era extremamente preconceituosa. Um tiro fatal na auto-aceitação de meninas negras.

“Pode falar o que quiser

Que hoje eu vim só pra causar

Insatisfeito, mete o pé

Eu cheguei pra tumultuar

Hoje a preta tá solta

Se é demais, que seja”

— Vim pra ficar


IZA diz ter “uma relação de ilusão com a beleza”. Ao mesmo tempo em que hoje se ama, o costume de publicar na internet sobre como é bonita e maravilhosa tem a ver com seu público. Ao passo que sabe que “quem a segue também precisa se enxergar”.

Inspiração brasileira que precisávamos

A música popular feita para festas e baladas por muito tempo se escorou na justificativa de ser um ritmo dançante para perpetuar letras de músicas extremamente preconceituosas e e desrespeitosas, principalmente com mulheres.

Ao mesmo tempo em que canta sobre amor e a vida de maneira leve em músicas como Brisa, Meu Talismã e Te pegar, ela traz mensagens importantes de como encarar a vida. E isso é de fato enriquecedor.

Desse modo é importantíssimo ver uma mulher negra se posicionando a respeito de temas importantes através de músicas que instigam todos a requebrar junto. Afinal, respeito e diversão não são e nem devem ser mutuamente exclusivos.

“Vamo gingar, sem vulgarizar

Pra suar a camisa, sem economizar

Pode avisar, firme a gente pisa

Pesadão-dão-dão no estilo Iza

Nem mesmo o céu é o limite

Foco no trabalho, muito mais que palpite

Tudo que te prende, é melhor que evite

A música liberta e eu te faço um convite”

— Ginga

Além disso em outras produções, ela exalta a vida trabalhadora, cita locais do subúrbio e periferia cariocas e incita a luta para conquistar o que deseja.

“O que eu sinto batendo no peito move cada passo

Se eu quero, eu sonho, eu faço, o meu corre é sagrado

O jeito da nossa gente é quente, é diferente

Chuva que lava a minha alma é fogo que nunca vai apagar”

— Evapora

Foto retirada do instagram da cantora IZA (no clipe da música Brisa).

Agregando valor ao pop

Algumas composições possuem exatamente esse caráter de superação, conquista de sonhos e força. São produções que não só encantam pelo ritmo excitante como também pelas reflexões que as letras trazem.

Vou reerguer o meu castelo

Ferro e martelo

Reconquistar o que eu perdi

Eu sei que vão tentar me destruir

Mas vou me reconstruir

Voltar mais forte que antes”

— Pesadão

É interessante que músicas populares tratem de fato de temas que estão de acordo com o povo que as consome. Desse modo, além de criar conexão popular, as composições de IZA buscam também inspirar a batalha diária de pessoas comuns.

“Se o deles é chique

O nosso é pau a pique

O que não mata o pique

Fortalece a equipe

O som do repique

Peço que amplifique

Toca da Rocinha

Chega em Moçambique”

— Pesadão

Da mesma forma a minha música favorita fala sobre esperança e fé, motivações constantes na vida de muitos brasileiros que são assombrados por desafios. É preciso que a música popular não só nos entretenha, mas também nos mova. Precisamos assim que a arte nos compreenda.

“Me perdi pelo caminho

Mas não paro, não

Já chorei mares e rios

Mas não afogo, não

(…)

Deixo a minha fé guiar

Sei que um dia chego lá

Porque Deus me fez assim”

— Dona de mim

Foto retirada do instagram da cantora IZA (uma postagem feita pelo Dia da Consciência Negra).

Preta & Voando alto

Assim sendo IZA cresce e ganha mais força, mantendo suas letras acessíveis e condizentes com a realidade suburbana que a moldou. Como resultado está voando cada vez mais alto e segue causando orgulho.

Em conclusão, recentemente lançou a música Let me be the one em parceria com o cantor Maejor. Em resumo o clipe foi gravado em fevereiro de 2020 em São Paulo e é tema de uma campanha global da Fundação Humanity Lab junto à ONU.

“Fala comigo

Conta teus medos

Pode confiar, vai ser nosso segredo

Mostrar que a vida pode ser bem mais

Que aquilo que você imaginou”

— Let me be the one

Dessa forma o foco da campanha é atribuir voz à causas importantes como a crise dos refugiados, a diversidade e a sustentabilidade. No vídeo aliás, conferimos a participação de diferentes rostos retratando diferentes realidades.

IZA declarou em uma entrevista com Lázaro Ramos que é necessário que mulheres negras falem para mulheres negras, porque às vezes o feminismo é racista e o movimento negro é machista.

Inegavelmente isso é pontual. Afinal uma mulher negra pode se opor e lutar contra essas duas opressões melhor do que ninguém. Nesse sentido, isso IZA tem feito.

Você já era ou se apaixonou pela IZA depois desse texto? Conte para mim nos comentários!

Foto em destaque retirada do Instagram da cantora IZA para fins de ilustração.