Negra viajante & o peso do jogo de cintura

Foto capa da postagem sobre negra viajante no blog Negra em Movimento.

Enquanto mulher negra que viaja já vivi e soube de diversos momentos em que ter jogo de cintura era não só necessário, mas em algumas vezes quase obrigatório. Lidar com atitudes racistas e machistas, sejam elas veladas ou abertamente violentas, se assemelha a um peso que faz aniversário há vários anos sobre nossos ombros: incômodo, mas esperado.

Em função disso me pego frequentemente repensando ações ou decisões pautadas na minimização desse fenômeno. Por vezes deixei de fazer ou dizer algo por uma razão que era total alheia a mim, mas totalmente relacionada à forma como minha pele é percebida no mundo.

Relembrei quantas vezes já ouvi mulheres negras se cobrindo de precauções para evitar embates que são criados por outras pessoas. Recordei tantas aventuras que foram limitadas porque outras pessoas se sentem no direito de ferir nossos direitos.

Senti cansaço por mim e por todas que enfrentam o mesmo, mas principalmente lamentei constatar que o jogo de cintura siga sendo tão crucial.

Situações comuns

O holofote sobre o cabelo negro

Nosso cabelo está em alta, né? A partir do movimento de incentivo ao cabelo natural negro, ele passou a virar pauta em tudo. Isso seria incrível se não houvesse o fenômeno da apropriação, é claro, e se algumas pessoas não houvessem passado a utilizar deste destaque para reproduzir os tentáculos do racismo.

Uma vez estava sentada no lobby de um hotel e uma mulher branca aleatoriamente me abordou fazendo altos comentários sobre meu cabelo e tentando enfiar as mãozinhas nele. Os comentários variavam entre afirmar como devia ser difícil cuidar dele e questionar como eu fazia para deixá-lo daquele jeito além de me encarar como um animal exótico de uma espécie desconhecida.

Recentemente estive em Salvador com uma amiga negra que na época estava usando tranças azuis. Em uma visita ao Mercado Municipal, uma mulher branca elogiou as tranças coloridas dela e então olhou para mim e meu cabelo (especialmente volumoso e com pouca definição no dia).

Ela questionou: “por que não quis trançar também? Teria ficado bonito”. Respondi a ela que gostava do meu cabelo daquele jeito com volume. Houve um momento de silêncio, ela encarou meu cabelo novamente e disse: “É, é bonito também”.

Certa vez uma mulher elogiou meu cabelo e em seguida começou a depreciar mulheres que tinham o cabelo crespo. Ressaltou diversas vezes como ela gostava do meu tipo de cabelo e que cabelos tipo 4 pareciam sujos e fedidos e apontou com desdém para uma negra crespa perto de nós.

Lidamos com ofensas disfarçadas de elogios, opiniões sobre como deveríamos usar nosso próprio cabelo, inquéritos sobre decisões que tomamos sobre ele, declarações cruéis e atitudes invasivas. No fim das contas ainda chamam de elogios.

Estereótipo: ilusão de identidade

O ser humano ama um rótulo, não é verdade? Existe essa necessidade crônica de enquadrar pessoas em pequenas caixas para o conforto da própria consciência. Quando se é mulher negra existem estereótipos bem definidos sobre nossa personalidade e comportamento.

Homens nos abordam de maneira desrespeitosa porque entendem que mulheres negras são fogosas e estão sempre prontas para um sexo fácil. Enquanto uma pessoa tímida, já fui elogiada em conversas com desconhecidos por não ser “escandalosa” ou “me irritar facilmente” com determinados assuntos.

Perdi as contas de quantas vezes me policiei, principalmente em viagens já que tendemos a relaxar mais e agir de maneira espontânea, para tentar não reforçar estereótipos. Já ouvi de mulheres como elas deixavam de fazer certas coisas para não passar a impressão errada para aquele gringo que acha que nos conhece pelo tom de nossa pele.

Cansei de engolir raiva para não soar grosseira ou muito ríspida mesmo quando teria toda razão para fazê-lo. Já vi amigas trocando de roupa antes de sair para a balada para não chamar tanta atenção – quando se é brasileira lá fora, a gravidade triplica.

Lidamos com estereótipos por sermos negras e por sermos mulheres. Desenhamos sorrisos nos lábios muitas vezes para evitar conflitos. Nada disso parece impedir que as situações sigam acontecendo.

O conto da preta “diferente”

Já ouvi que não era negra porque aparentemente não possuo traços negróides. Senti na pele a falsa aceitação porque o tom de minha pele faz com que em alguns ambientes eu seja vista como morena. Já viajei a trabalho para eventos e ouvi que “eu era diferente” das outras como se fosse um mérito.

As pessoas constantemente te incluem em um círculo exaltando que naquele meio sua negritude não existe e depreciam outra mina preta (geralmente retinta) como se te fizessem um favor. Usam um exemplo de comportamento para denunciar toda a personalidade dela como “já esperado desse tipo” e esquecem que você é exatamente do mesmo tipo.

Na sociedade frequentemente existem alguns pretos que são selecionados como aqueles aceitáveis, desde que se mantenham em seus lugares e que não queiram falar muito alto sobre raça nem sobre aqueles pretos que não são aceitos em lugar nenhum.

Em viagens percebo cada pessoa negra com quem me deparo em posição de serventia e partir de cada indivíduo reflito sobre os privilégios tragos pelo colorismo e pela desigualdade de classes.

Não há problema algum em trabalhar para servir aos outros, mas ver que a maioria de nós continua em posições de serventia que são no geral mal pagas e desprezadas pela sociedade como um todo me faz lembrar de cada vez que fui vista como a preta diferente em um meio exclusivo que exclui principalmente pessoas como eu.

A agressão silenciosa

Talvez a forma mais comum de racismo nessa sociedade pós-moderna de legislações contra injúrias raciais. Precisaram reinventar sua forma de discriminar pretos e foi assim que surgiu o racismo velado, embora para alguns o racismo tenha acabado em 1888.

Com certeza a forma mais sorrateira de praticar racismo é quando transmite o desdém através do silêncio ou ações que prejudicam intencionalmente uma pessoa negra sem jamais precisar se justificar por isso.

Não deixe de conferir a postagem O Corpo Negro e o Mundo em que falo mais sobre o assunto

Aqui cabem não só as piadas prontas que só entretêm o locutor e os olhares discretos que transmitem um quieto desconforto, existem tantas características culturais racistas que as pessoas têm dificuldade de enxergar sua verdadeira origem.

O mais crucial aqui, porém, é que ainda que nenhuma palavra seja trocada, é difícil encontrar um preto que nunca tenha sofrido racismo velado. Em viagens ele com certeza é o mais comum de todos; pessoas que não podem abertamente expressar a discordância a respeito da sua presença, mas encontram outras maneiras de clarificar que não é bem vindo.

A agressão silenciosa me lembra sobretudo que vivemos em um cenário de aparências em que todos atuam quando diante das câmeras, mas mostram suas verdadeiras faces nos bastidores.

O que manter em mente?

Primeiramente precisamos lembrar que não somos obrigadas a absolutamente nada e que não existe manual de instruções a ser seguido e nem deve existir. Cada uma de nós carrega uma coleção de experiências e uma compreensão diferente de como agir a partir dela.

Precisamos saber diferenciar o orgulho da sabedoria. Caso sinta que está em uma situação com um mínimo de risco que seja, o ideal é sempre optar pela segurança, ainda que inclua engolir sapos e fugir dali. Nossa integridade jamais é negociável.

Por último precisamos lembrar que cada situação é uma situação e cada lugar é um lugar. É necessária a leitura correta de cada momento e a compreensão do que se pode ou não fazer a respeito. Quando estamos em um lugar precisamos seguir determinadas regras, mesmo que elas não estejam de acordo com o que acreditamos.

Como (re)agir?

Por fim precisamos saber o que fazer quando somos jogadas em situações desse tipo, sempre se lembrando de que uma mesma ação não será possível em todos os casos, seja devido ao local em que esteja seja por motivos de segurança.

Ao longo do tempo o método que melhor entendi funcionar para mim é o da falsa ignorância. Como ele funciona? Basicamente respondendo perguntas ofensivas ou comentários racistas com um questionamento aparentemente inocente.

Em relação ao cabelo, por exemplo, quando alguém comenta sobre como com certeza ele é difícil de lidar, eu questiono: Por que seria? Ou Por que acha isso?

Quando alguém usa estereótipos para descrever outra mina negra ou até mesmo você de maneira pejorativa, experimente convidar essa a pessoa a explicar sua linha de raciocínio para que ela mesmo ouça a origem de seu pensamento.

Isso para mim funciona porque coloca o holofote sobre as motivações por trás de cada ação e relaciona o desconforto com aquele que verdadeiramente deveria senti-lo, o ofensor, e não nós.

Além de que, no melhor dos cenários, nossa pergunta pode gerar na pessoa uma autorreflexão e talvez até uma mudança de comportamento. É importante falar em nome de injustiças e contra violência, ainda que de maneira indireta.

E é claro que uma opção sempre válida é simplesmente ignorar, não entreter uma linha racista de raciocínio e não engajar em conflitos. Sabemos bem que existem diálogos que não valem o esforço e pessoas que não valem à gastura. Nessa opção escolhemos existir e seguir independentemente deles e ao invés pensando em nós.

Lutas que valem à pena

Mais do que tudo, é importante que o jogo de cintura tenha a ver com o que pensamos ser o melhor curso de ação e o que será melhor para nossa saúde mental. Quem fala a favor de minorias, ainda que somente no cenário casual entre familiares e amigos, sabe como pode ser desgastante esse constante embate.

Vivemos em um cenário onde batalhas são travadas cotidianamente, mas nem todas são merecedoras da luta. Que saibamos quais valem nosso sangue e façamos por onde, mas que tenhamos a sabedoria de também reconhecer aquelas que não darão em lugar nenhum.

E empunhando espadas ou não, seguiremos firmes.

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