“Negro” não é palavrão

Certa vez em uma tarde pós-almoço de domingo, pedi a opinião de minha mãe sobre qual termo deveria usar para uma categoria do meu blog: protagonismo afro ou protagonismo negro.

“Afro”, ela respondeu meio segundo depois, “a palavra negro é muito forte”.

Ouvir isso de minha mãe, uma mulher negra, me fez relembrar que existe um processo de camuflagem sobre o que significa ser negro, que nada mais é do que um mecanismo de invisibilidade.

Eu sou negra.

Negra.

E conto nos dedos as vezes em que se referiram à mim como negra ao invés de “mulata”, “crioula”, “escurinha” ou “pretinha”. Até “queimadinha”, uma vez. Queimadinha. Sério?

Lembro de certa vez em que uma pessoa branca quis me doutrinar: quando eu disse que era negra, a pessoa corrigiu dizendo que eu era morena. Obrigada por me corrigir quanto à minha identidade, graças à você agora sei que minha pele não é negra, “é cor de chocolate”.

“Negro” não é ofensa.

Não precisa quebrar a cabeça tentando encontrar um sinônimo e nem enrolar a própria língua para descrever uma pessoa enquanto negra. Não é ofensa e não há nenhuma necessidade de tentar amenizar o que não é ameaça.

Evitar a palavra “negro” funciona como uma ferramenta da engrenagem de negação; convencem-nos de que o que somos não é algo para ser dito em um microfone, e sim uma desonra que deve ser no máximo sussurrada em busca de redenção.

“Negro” não é vergonha.

Nenhuma parte de nossa identidade deve ser trancada num baú a sete chaves, pois nascemos para dançar no sol assim como todo mundo. Que não escondamos nenhuma parte do que somos, nem o reflexo no espelho nem a palavra proferida.

A liberdade de se afirmar em voz alta é um direito automático para alguns e um instrumento de luta para outros. Sabemos que é assim há muito tempo, mas é importante não esquecer que o direito também é nosso, mesmo que não tenha vindo numa bandeja de prata.

“Negro” não é palavrão.

Não precisa ter medo de usar a palavra e nem medo de se reconhecer na palavra. Não há nenhuma ressalva a ser feita sobre o que é real. Somos reais e este fato dispensa eufemismos ou panos quentes.

Não precisa fazer silêncio, não precisa engolir a voz. Negro não é palavrão, então pode abusar das cordas vocais para deixar isso claro em bom tom. Espalhe a boa nova para quem ousar lhe questionar, para quem está indeciso sobre o que falar e para as crianças que vai educar.

É um grande exercício de resiliência gritar quando nos mandam calar, seguir quando nos mandam parar, resistir quando nos mandam desistir.

No fim das contas, escrevi esse texto para dizer que minha mãe estava certa.

A palavra “negro” é realmente muito forte.

Texto orginalmente publicado no Medium em outubro de 2018.