O corpo negro e o mundo

Foto capa da postagem sobre corpo negro e mundo no blog Negra em Movimento.

O corpo negro e o mundo significa Delsie Gayle.

O propulsor desse texto

Uma mulher negra de 77 anos foi alvo de ofensas racistas por parte de um homem branco durante um voo da companhia Ryanair de Barcelona para Londres. O vídeo que mostra o ocorrido viralizou durante o mês de outubro e gerou uma chuva de críticas à companhia por não ter retirado o homem do voo.

A situação: Delsie, uma idosa com dificuldade de locomoção por conta de artrite, estava sentada na poltrona do corredor no avião e demorou a dar passagem para que o homem ocupasse seu assento na janela.

Ele então começou a insultá-la dizendo que “ela nem devia estar sentada ali” e após a filha da senhora tomar partido para defendê-la, iniciaram-se gritos que variavam entre chamá-la de “vaca feia estúpida” e “negra desgraçada” até ameaçá-la dizendo que a removeria do assento por força se ela não saísse de perto dele.

Resultado: o comissário de bordo demorou até intervir e quando o fez, pediu para que o homem se acalmasse e então disse que informaria sobre o ocorrido ao seu supervisor. O homem disse “está bem”. Com exceção de um único passageiro, ninguém no voo disse ou fez nada. A idosa mudou de assento. O homem seguiu viagem.

Delsie Gayle no Good Morning Britain

A visão sobre o corpo negro

Este episódio me fez relembrar o que o corpo negro ainda representa para o mundo: um estorvo. Um entulho esquecido no meio do caminho que precisa ser removido. Uma inconveniência que ousou se mostrar. Uma marca que não conseguem apagar. Um legado que não podem matar.

Enquanto negros resistimos todos os dias e nossas experiências são vividas individualmente, mas sentidas coletivamente. Perto ou longe de casa.

“A minha experiência foi em Curitiba, principalmente pelo histórico de ser uma das cidades mais racistas do Brasil. E a percepção era de que as pessoas sempre estavam espantadas com negros, porque quase não formam os locais de lá. – Emanuel Cunha

Lázaro Ramos contou no livro Na Minha Pele que ele só descobriu que era negro quando se mudou da Ilha do Paty, distrito baiano onde foi criado que abriga uma população quase 100% negra. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie diz em Americanah que só descobriu que era negra quando se mudou para os Estados Unidos.

Tomamos consciência de cor quando pessoas brancas nos fizeram sentir desconfortáveis em nossa própria pele. Nós nos tornamos minoria social quando a maioria detentora de poder estipulou que ser negro era um problema.

Entendemos por isso que ser negro tem a ver também com nosso encontro com o diferente.

E a viagem é um instrumento que se alimenta do encontro entre diferentes e é, portanto, também uma plataforma em que esses embates tomam forma. E falar sobre corpo negro e viagem é falar sobre o direito ao espaço.

Luta por espaços

Claudette Colvin foi uma adolescente negra pioneira no Movimento dos Direitos Civis e nove meses após seu ato corajoso, surgiu Rosa Parks. Ambas resistiram à lei segregacionista que as impelia a ceder seu assento no ônibus a uma pessoa branca e foram presas por isso.

Ser negra e ocupar um espaço era um ato de desobediência civil. Isso aconteceu em Alabama, Estados Unidos, em 1955. É 2018, ser negro segue sendo interpretado como um ato de desobediência e continuamos lutando para provar que o assento é também nosso.

“Presenciei um caso com um amigo meu em São Paulo no ano passado. Estávamos numa feira de jogos e ele se sentou ao lado de uma senhora, ela puxou e segurou a bolsa com rapidez, fazendo cara feia e reclamando de maneira arrogante que ele tinha invadido o espaço dela. A mensagem foi óbvia. – Leonardo Tobias

Em viagens lidamos com o olhar de choque, incômodo e descrença como se estivéssemos atravessando uma fronteira invisível. Como se tivéssemos ignorado a placa na entrada que diz “não ultrapasse”. Como se fôssemos a sujeira que o vento trouxe para dentro de casa e eles estivessem ponderando a melhor forma de eliminá-la.

Incomodadíssimos com nossa ousadia em ignorar os limites sociais historicamente estabelecidos, eles se organizam para se defender e atirar na ameaça que nos livros de autoria própria assumem a forma do corpo negro. E no fim das contas, os criminosos somos nós.

Somos lembrados de que somos negros e de que para alguns isso é uma ofensa todo o tempo. As pessoas expressam o sentimento de repulsa até pelo silêncio. É difícil explicar exatamente para alguém branco o que significa o racismo velado quando a pessoa não disse nada.

O racismo que não é barulho

Existe a lenda de que só é racismo se a pessoa canta ofensas com a chibata na mão. É daí que vem a contra resposta de que estamos nos vitimizando, imaginando coisas, que temos mania de perseguição, que os tempos já mudaram, que interpretamos erroneamente, que pode ter sido grosseria, mas de nada tem a ver com racismo. Mas a gente sabe.

Tem olhar que faz nossa pele queimar. E isso não se explica, se vive.

“Get Out (Corra!)” – Filme de 2017 pelo diretor Jordan Peele

Por isso considero tão importantes as produções que falam sobre o racismo em tempos atuais, como o filme Corra! Quando concentramos a discussão sobre a questão racial exclusivamente acerca da escravidão, o Apartheid ou até mesmo o Movimento dos Direitos Civis, parece que os problemas já foram extintos e que hoje vivemos no mundo paradisíaco da diversidade.

Debater sobre esta questão no âmbito contemporâneo é um exercício para parar de pensar que racismo só existe na propagação direta de um discurso de ódio. Racismo não é só preconceito, é um sistema com raízes profundas e ele tem formas diferentes de espalhar os seus tentáculos.

“Por incrível que pareça fui tratada estranhamente por um grupo de brasileiros enquanto ia para Mendoza na Argentina. Era um grupo claramente de classe média/alta que provavelmente ia esquiar em Mendoza, desde o avião eu senti olhares estranhos deles para mim (eu era a única negra no voo).

Como minha mala era preta igual a de praticamente todo mundo, peguei a mala de uma senhora desse grupo sem querer achando que era a minha; ela veio tirar a mala da minha mão com uma super ignorância falando que era dela, eu falei que não tinha percebido e que eu iria somente checar para ver se tinha meu nome, ela me olhou com desdém e saiu carregando a mala e comentou algo como “agora você vê” com o grupo dela. – Thayara Conde

E se você, enquanto branco, sentir aquela vontade de ensinar o que é racismo para uma pessoa negra, aguarde que vontade passa. Entenda que por mais que dedique a vida ao estudo de um assunto, nada substitui a experiência pela vivência. Então se quiser realmente contribuir, escute, mas também não se acomode na ideia de que é nosso dever lhe educar.

O papel do negro educador

Quando se é negro, atribuem à nós o papel de ser didático, paciente e resiliente. Pedem para que façamos slides para apresentar ao colega branco porque nos sentimos ofendidos. Jogam em nossas costas a responsabilidade de convencer uma sociedade opressora porque nos sentimos oprimidos.

Eles apertam o gatilho e então é nossa culpa não ter desviado da bala.

Constantemente temos que nos justificar para os outros para evitar o erro de ser mal entendidos. Sabemos bem que no máximo quando está com razão o negro é algemado, como foi o caso da advogada Valéria dos Santos.

Quando ocorre um mal entendido? 5 corpos negros, 111 tiros.

E pedem que vivamos sempre com o coração aberto e a calma na alma. Do contrário, somos descontrolados rebeldes que nunca mereceram o microfone. Caso nos ofendamos, somos aqueles que não sabem dialogar.

O negro bom é o negro complacente e comportado, como ilustra a atriz e poeta Ernestine Morrison no poema A Garota Negra Padrão (tradução livre). Quando uma pessoa negra ousa questionar, ela é hostilizada. Se for uma mulher negra então, humilhá-la publicamente se torna cultural como acontece com Samantha White na série Dear White People.

Quebram os nossos dentes, mas ai de nós se não continuarmos sorrindo.

O racismo que “inventamos”

Tem uma lenda muito curiosa que diz que “a culpa do racismo é do negro, porque ele é que começa a se doer e ver coisa onde não há”.

Negros chegam em 2018 sentindo na boca o gosto do sangue daqueles que morreram para que pudessem viver para ouvir que quem começa a se doer é o negro.

14 de março de 2018. Marielle Franco. Vereadora negra que lutava por direitos de minorias sociais é executada. 3 de outubro de 2018. Placa de Marielle Franco. Destruída e os autores do crime gravam um vídeo da ação. 1 de novembro de 2018. […]

Um corpo negro foi brutalmente violado por duas vezes, na carne e na memória. Nada foi feito. Os passageiros do avião não só se calam, como riem de nossa revolta. Afinal, desde quando matar preto é crime?

O negro bom é o negro calado e conivente, aquele que não questiona e nem grita muito alto. Do contrário, você passa pelo que a youtuber Nátaly Neri passou ao se posicionar politicamente em seu canal e receber comentários cruéis relacionados a sua negritude.

Mas dizem que quem criou o conceito de raça foi o negro, que somos nós que insistimos nesse “negócio de segregação”, afinal “somos todos iguais”. E geralmente a frase vem seguida pela minha lenda favorita: “pertencemos todos à raça humana”.

A piada que não entendemos

Vivemos cercados de piadas, dialetos, frases e ações que nos diminuem, mas porque estão inseridas em nossa cultura sempre foram aceitáveis. Quando trazemos luz sobre uma atitude problemática, é a culpa do nosso olho por ter enxergado a maldade.

“O contexto é o seguinte: em janeiro deste ano eu, minha avó e mais 12 pessoas da família fomos visitar Gramado e adjacências. Como éramos 14 pessoas negras juntas, já imaginei que existisse a possibilidade de sermos reparados com espanto à primeira vista.

Desde que chegamos ao aeroporto de Porto Alegre, pude observar de forma sutil a surpresa de algumas pessoas. A todo momento esse espanto acontecia, quando íamos num grupo de 4 a um restaurante ou quando éramos 10 numa loja de conveniência. No penúltimo dia em Gramado, resolvi visitar o Snowland, um parque de gelo na cidade.

O lugar era muito legal, eu me senti realizado pela experiência que eu já queria vivenciar desde quando soube que iria em Gramado, mas qualquer contato com outra pessoa era péssimo. Desde pedir para alguém tirar uma foto minha (algumas pessoas até se negavam) até o atendente do bar onde eu parei para beber uma cerveja de café ter me tratado de qualquer jeito enquanto os outros clientes recebiam altas explicações sobre a produção da cerveja. Senti o atendente bem desconfiado e incomodado com a minha presença.

Até nos locais para colocar a roupa mais grossa do parque eu procurava ficar num canto onde não tinha ninguém porque eu realmente fiquei com uma sensação muito forte de que não era muito bem vindo naquele lugar. Foi uma tarde bem desgastante nesse sentido; não comprei um chaveiro porque nem ficar tranquilo dentro da loja do parque eu ficava. – Jefferson Fernando

Recentemente vi em um episódio de How to Get Away with Murder uma empresária branca tentar tocar no cabelo da protagonista negra Annalise, interpretada por Viola Davis. Após a reação negativa de Annalise, a empresária então pede para sua assistente pesquisar no Google qual era o problema em tocar no cabelo de uma pessoa “afro-americana”.

Em resultado, a empresária se desculpa com Annalise, claramente incomodada com sua “falha de etiqueta” e ainda ignorante sobre o problema em sua ação. Uma pessoa branca pedindo desculpas por uma atitude racista por ter sido repreendida e não por ter absorvido qual era o problema. Será possível que já vimos isso antes?

Ah, eu tinha me esquecido. É nosso olho que vê maldade.

O racismo de todo dia

Como aquele vídeo na cidade Bilbao na Espanha em que crianças brancas abertamente hostilizam uma criança negra um um parque, impedindo-a de utilizar os mesmos brinquedos que elas. Como o vídeo da youtuber Ana Paula Xongani em que ela relata a rejeição que sua filha de 4 anos sofreu por crianças brancas no parquinho do prédio onde mora.

Como o caso da malauiana Ava que foi adotada por um casal branco e sofreu racismo por parte de crianças brancas no hotel Fasano Boa Vista em São Paulo. Como é o caso de Chissomo (Titi), também nascida em Malawi (sul da África), que desde que foi adotada por Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank sofre com ofensas racistas na web.

Lembra do teste social mexicano feito com crianças em que perguntas positivas e negativas eram feitas a elas em relação a um boneco branco e outro negro? Acho que não precisa nem de especialista para analisar os resultados.

Ensinam crianças a odiar o corpo negro e como esponjas elas absorvem o conteúdo sem filtro, tornando-se no futuro adultos que ensinarão seus filhos a reproduzir esse legado. É uma batalha fazer pais se lembrarem de ensinar ao filho que não existe “lápis cor de pele”.

Sim, lembrei! É tudo vitimismo nosso.

Os negros que “querem demais”

Por isso que na campanha do O Boticário para o dia dos pais desse ano, quando a empresa resolveu colocar uma família inteiramente negra no comercial, houve uma chuva de críticas e uma rejeição estratosférica à publicidade. Aparentemente um cenário em que branco não é personagem demonstra que estamos projetando um mundo contra eles.

Que engraçadinho acharmos que poderíamos ser protagonistas em nossas próprias histórias.

Comercial de O Boticário para Dia dos Pais 2018

Ou talvez não tenha visto o comercial de uma marca de detergente chinês em que uma mulher coloca uma cápsula de detergente na boca de um homem negro, joga-o dentro da máquina de lavar e ele sai de lá um homem chinês.

O racismo que deixou de existir

Não é que “tudo virou racismo”, sempre foi. A diferença é que agora quem fala o que sempre falou é repreendido por quem sempre ouviu calado. A diferença é que agora estão sendo responsabilizados pelo mal que reproduzem.

“Eu sinto (racismo) na área (mercado de turismo) de um modo geral. E sempre tenho a sensação de que preciso ficar provando as coisas o tempo todo. Sempre. Ser tratada frequentemente como estagiária… Minhas viagens são mais a trabalho. Quando viajei a lazer e estava acompanhada de um cara branco, as pessoas se dirigiam a ele e não a mim. – Emanuelle Oliveira

É, eu sei. Faço parte da geração mimimi.

Afinal, tem tantos brancos querendo honrar nossa história, não é mesmo? Como quando escolhem a Black Face ou a personagem Nega Maluca para se caracterizar em festas ou no carnaval. A arquiteta e ativista Stephanie Ribeiro fala sobre isso em seu texto “Negro não é piada para branco: chega de fofura seletiva”.

Um povo misto sendo reduzido a alegorias, resgatando a imagem do negro bobo da corte cuja missão na vida é ser piada.

Desculpe, esquecemos de rir.

Os brancos que amam cultura preta

O melhor ainda é quando resolvem nos homenagear. Lembra quando uma certa youtuber, casada com um youtuber também acusado de racismo por um comentário sobre o jogador francês Kylian Mbappé, resolveu utilizar uma fantasia que homenageava pessoas escravizadas para o Baile da Vogue desse ano?

E aquela menina branca cuja festa de 15 anos tinha o tema do período colonial brasileiro com direito a negros fantasiados de escravos a servindo? Sim, aconteceu em Belém em março deste ano.

E ainda o caso que saiu recentemente em Natal, em que uma mãe fantasiou o filho de 9 anos de escravo para a festa de Halloween da escola; além de pintá-lo de marrom, ela o maquiou com marcas de chicotadas e deu o toque final prendendo os braços dele com correntes.

Isso, verdade, o racismo está na cabeça do preto.

O enorme espaço que “os negros já têm”

Afinal, ganhamos tanto espaço, não é mesmo? Tem até uma atriz negra na novela agora, do que estamos reclamando? Taís Araújo e Lázaro Ramos, um casal negro poderoso na mídia e nós aqui insistindo que somos invisibilizados.

Eles nos oferecem migalhas e então nos chamam de gulosos por querer o pão inteiro.

“Devem mesmo é estar querendo ser superiores, ter privilégios”. Engraçado que custamos a fazer uma pessoa branca falar sobre privilégios e quando eles finalmente falam, viram a palavra contra nós. Tenho que aplaudir a ousadia realmente porque a consciência foi jogada no lixo.

“Apareceu até uma mulher negra no comercial de maquiagem agora! E daí que era uma mulher negra de pele clara? Ah pronto, que papo é esse de colorismo? O que quer dizer sobre ignorarmos e invisibilizarmos traços negróides?”

Talvez aquele cantiga tradicional sobre a beleza propagada ser a branca eurocentrada. Você acha que a técnica de afinar o nariz com maquiagem porque é mais bonito vem da onde? Em combate a isso, a youtuber Gabi Oliveira fez um vídeo intitulado “tour pelo meu rosto” em que celebra seus traços e sua beleza.

A beleza preta que está na moda

“O racismo esteve presente desde muito cedo na minha vida, mas demorou para que eu me desse conta disso; iniciou na escola quando eu era a única negra com cabelo crespo na sala de aula, em seguida quando traduzia a cor da minha pele em morena clara, parda, amarela, mas nunca negra.

E hoje em dia nas ruas, nas lojas quando o segurança segue disfarçadamente, nas entrevistas de emprego quando primeiramente direcionam o olhar para o meu cabelo e somente depois para o fundo dos meus olhos, ou quando dizem: Ele é bem alto né? Ou deve ser difícil para cuidar. Em todas essas ocasiões eu vivi o preconceito velado porque as pessoas não querem se autodenominar preconceituosas, intolerantes, mas são quando não escondem o seu incômodo pela cor da pele, sua preferência pela a aparência que é dita como “padrão”. – Ingrid Santos

E ainda no assunto beleza, que bonitinho ouvir na rua elogios ao meu cabelo e a afirmação de que ele está na moda.

Meu DNA agora é moda.

Ninguém se pergunta porque eu passei anos utilizando o cabelo alisado nem porque o meu cabelo natural só apareceu de novo quando eu tinha 20 anos. Agora é tão legal o cabelo cacheado que até usam peruca Black Power em rede nacional.

Mas só se o cabelo é cacheado, tá bem? Eles estabelecem uma demarcação no crespo. Se seu cabelo for Tipo 4, prepare-se para ser chamada de suja e perder vagas de emprego. E cuidado ao usar tranças ou dreads, existe um limite de negritude aceito socialmente.

A menos que seja uma modelo branca desfilando na São Paulo Fashion Week. Aqui quanto maior e mais colorido o turbante melhor. Afinal, tudo bem ser negro quando se é branco.

Os negros que os brancos “amam”

E se você é negra, saiba que tem mais um obstáculo pela frente porque existe um fenômeno curioso que atende por solidão da mulher negra. Para sobreviver, você precisará se apaixonar pelo seu reflexo mesmo que seja descartada nos espelhos dos outros.

Aliás, o negro desejado mesmo é o negro hiperssexualizado.

Pode ser que não lembre, mas a cerveja Devassa uma vez fez um comercial com o seguinte slogan “é pelo corpo que se reconhece a verdadeira negra” ao lado da foto de uma mulher negra em posição sensual.

Comercial Devassa

Vai me dizer que não ouviu falar no “negão do whatsapp”? Ah poxa, mas é só uma piadinha. É até elogio, vai. Claro, é uma delícia ter seu corpo utilizado como anúncio grátis de luxúria e se tornar símbolo de espaço público para a população.

Afinal, quem não gostaria de usar na testa a tatuagem “Use sem moderação”?

“A maior questão é o estereótipo da mulher negra brasileira, que é identificada como “globeleza” no exterior, e a visão das pessoas relacionada à prostituição. Em uma das vezes estava conversando com um cara em um bar e ele disse: “samba para mim”; como se eu, por ser brasileira, mulher e negra, tivesse a obrigação de fazer um show para ele ou a obrigação de saber sambar.

Em Vegas um cara me abordou na rua, eu não quis conversar e ele me seguiu; perguntou de onde eu era e praticamente implorou para que eu transasse com ele. Numa outra ocasião, fui perseguida dentro da loja pelo segurança até o caixa, ele ficou aguardando que eu pagasse e me seguiu até a porta da loja, observando ainda para onde eu estava indo.

É constrangedor esse tipo de coisa. Já me pararam no lobby de um hotel para perguntar se eu era acompanhante de luxo ou se estava hospedada. Quando viajo, já me preparo psicologicamente para esse tipo de coisa, ainda mais se eu estiver sozinha. – Anônimo

O negro que existe “demais”

O corpo negro incomoda de um jeito ou de outro em algum momento. Nós negros somos criados para nos sentirmos incomodados com nosso próprio corpo e o processo é tão vil, tão sujo, tão enraizado que alguns naturalizam o desprezo e deixam de enxergá-lo.

De todas as coisas, a maior violência da sociedade contra o corpo negro é anestesiá-lo contra as porradas que ele sofre. Até que simplesmente para de senti-las e as abraça como parte de sua existência. Até que ele simplesmente passa a negá-las.

Ser negro é viver em colisão com o que o resto mundo atira em nós. Seja através de uma piada, comentário, humilhação ou agressão, vivemos nos preparando para o próximo golpe e ponderando como iremos levantar. Mas levantar iremos.

A desobediência virou resistência.

Esse texto é para você, a próxima Delsie Gayle.

Eu não sei se no próximo voo haverá alguém filmando, então não tenho certeza de que saberei seu nome, e quem sabe, de repente a próxima Delsie serei eu. Não importa quem seja, porém, o recado é o mesmo: não saia do seu lugar.

Que o avião não decole, mas não saia do seu lugar.

Que os outros passageiros que não gritaram em seu nome enquanto era agredida gritem com você pelo atraso. Que o comissário de bordo que falou cheio de dedos com o homem branco fique enfurecido contigo.

Não saia do seu lugar.

O corpo negro existe e resiste a muita coisa.

Não é hoje que ele vai parar.

E se nos tirarmos do avião, aprenderemos a voar.