A segmentação turística como empoderamento de minorias sociais

Foto capa da postagem sobre segmentação turística no blog Negra em Movimento.

Na sociedade em que vivemos é comum ver a formação de grupos para o fortalecimento e a preservação de identidade e também como uma maneira de autoproteção. Deste modo, não é surpreendente que esta tendência tenha se desenvolvido no papel de segmentação turística.

Se há a formação de grupos em diversos âmbitos sociais, por que não aconteceria o mesmo com a viagem? Entendendo as limitações e as dificuldades que minorias sociais enfrentam também para viajar, nada mais justo do que a união para fazer a força.

Contudo, neste caso a segmentação turística não se manifesta somente como uma opção de negócio ou uma lacuna a ser preenchida, ela vai além disso promovendo o empoderamento destes grupos socialmente minoritários.

Vamos descobrir como.

Entende-se por…

Segmentação turística:

Visto primordialmente por um viés mercadológico, é a técnica de divisão por blocos (segmentos) de diferentes setores de mercado ou interesses da demanda a fim de melhor direcionar e planejar a oferta do produto ou serviço. Há diferentes maneiras de realizar a segmentação como por idade, renda, motivação da viagem e grupos homogêneos.

No caso do turismo, exemplos de segmentos seriam turismo de lazer, de negócios, de aventura, religioso e esportivo. Há ainda a existência de nichos turísticos, caracterizados por interesses mais específicos de um público, como o cicloturismo, o turismo criativo e o turismo de terceira idade.

Empoderamento:

De acordo com o Dicionário Michaelis, é uma ação social coletiva que visa potencializar a força e consciência social, política, econômica e espiritual de grupos marginalizados a fim de que alcancem a emancipação individual e coletiva e eliminem a dependência e dominação sociais que os permeiam.

É também um processo de redução da vulnerabilidade e ampliação de capacidades destes grupos mediante o exercício de direitos sociais e civis que os competem.

Minoria social ou sociológica:

Primeiramente, o termo não está associado à porcentagem quantitativa de um grupo. Não há um conceito absoluto sobre a expressão, mas para fins de compreensão deste texto iremos considerar o seguinte conceito geral:

Grupos que se encontram em posição de desvantagem social, econômica e/ou política em relação a um grupo “maioritário” dominante, por vezes sendo vítimas de comportamentos discriminatórios, preconceituosos e periculosos graças à essa condição.

Minorias sociais podem ser formadas por motivos como gênero, etnia, sexualidade, religião, cultura e aptidão física e/ou mental e ao mesmo tempo em que desenvolvem um forte senso de identidade coletiva também experimentam um sentimento de isolamento.

Exemplos de minorias sociais são as mulheres, grupos étnicos e raciais como a comunidade negra, a comunidade LGBT, a comunidade indígena, pessoas com deficiência, entre outros.

Segmentação Turística + Minorias: qual a importância?

Uma vez que os conceitos foram destrinchados, podemos passar a pensar porque se deu este processo de união entre a segmentação turística e grupos minoritários. Existem motivos diversos que explicam essa união, mas principalmente porque ela é tão importante:

Segurança

Quando falamos de grupos que são oprimidos por “maiorias sociais”, é consequente o sentimento de que quando estamos em meio de pessoas iguais a nós, nos sintamos mais confortáveis e mais seguros.

Não só porque a ameaça de conflito é reduzida como também é devido à expressão “proteção por números”; nos sentimos menos vulneráveis e suscetíveis a discriminações quando estamos acompanhados pelos nossos iguais.

Pertencimento

Estar entre os nossos possibilita um sentimento de que fazemos parte daquele local, daquele grupo e daquele momento. Traz um senso de familiaridade e acolhimento estar ao lado de pessoas que compartilham algo primordial em comum conosco.

Fortalecimento Identitário

Estar entre iguais fortalece os laços identitários que temos em comum. É como uma celebração de quem essencialmente somos e a solidificação de que nossa essência cresce e se desenvolve quando promovemos o orgulho relacionado a ela.

Representatividade

Olhar e se reconhecer é uma emoção sem igual. A partir da reafirmação identitária, nos sentimos não só representados como representantes. Estamos esclarecendo que não só existimos como existimos aos montes, cada um à sua maneira e ainda assim encontrando um ponto de interseção que é o que nos torna iguais.

Incentivo & Criação de Possibilidades

A segmentação também pode funcionar como um incentivo para que estes grupos viajem e mais do que isso, pode ser uma forma destes grupos entenderem que eles podem viajar.

Assim como já debati no texto O corpo negro e o mundo, minorias também têm direito ao espaço. É um estímulo à naturalidade de ver grupos minoritários viajando, o que para alguns ainda parece ser estranho e às vezes até nocivo.

Lucro

Seria desonesto que não considerasse aqui esta motivação que permeia muitos negócios a investirem nessa estratégia. Em alguns casos nota-se uma carência no mercado e consequentemente uma oportunidade de negócio a ser explorada – o que não é um problema desde que o negócio agregue valor e priorize a relevância da proposta.

Contudo, existe um interesse mercadológico que deriva puramente do lucro e por essa razão é preciso cuidado e atenção. A comunidade LGBT é um alvo constante de iniciativas que não buscam contribuir para a causa e sim somente o retorno financeiro; existe todo um debate a respeito do pink money e das empresas que usufruem dele com um método sanguessuga.

É necessário buscar saber identificar quais iniciativas são verdadeiramente honestas em suas intenções de fortalecer e empoderar aquele grupo. Além disso é interessante atentar para propostas que são de fato encabeçadas por pessoas pertencentes àquele grupo porque ninguém melhor do que alguém que vive a realidade para falar sobre ela.

Adicionalmente, é importante frisar que a segmentação não significa que se esteja buscando promover uma segregação e ódio contra maiorias sociais nem nenhum tipo de conflito. Ao incentivar a união em grupos estamos estimulando o nosso protagonismo enquanto pessoas.

Buscar reconhecimento não deveria ser entendido como uma arma de ataque e não oferece risco nenhum; enquanto sociedade, estamos sempre buscando formas de pertencer e nos encontrar e isso não deveria ser taxado como ameaça.

Como essa união se dá?

Os conceitos já foram estabelecidos bem como as razões que levam a segmentação baseada em grupos minoritários, agora só resta entender exatamente como isso acontece de forma prática.

Grupos de viagem

A formação de grupos exclusivos de viagem talvez seja a forma mais comum de segmentação turística quando falamos sobre minorias sociais. Pessoas físicas ou empresas investem na reunião de grupos homogêneos para expedições em conjunto; é o caso da fotógrafa Patricia Schussel (@patchinpixels), da turismóloga Cris Marques do blog Raízes do Mundo e da Gilsamara do Girls Go que organizam grupos compostos por mulheres para viajar.

Plataformas/Agências Especializadas

Existem plataformas e agências que se especializam para atender tipos específicos de público a fim de servir como provedor que realmente compreende as necessidades desta demanda, é o caso dos rapazes do Diáspora Black e do Nomadness Travel Tribe.

O primeiro que reconheceu a dificuldade de viajantes negros de escolher e fornecer hospedagem sem a sombra da discriminação e o segundo que se tornou um facilitador para viagens afrocentradas.

Já fiz um post no blog a respeito de plataformas que servem como incentivo à viagem afrocentrada.

Roteiros Especializados

Há ainda quem concentre esforços em criar roteiros que prestem homenagens ou que sirvam como aprendizado sobre a história de um grupo como fazem a agência Black Bird e a Rota da Liberdade, promovendo roteiros por comunidades remanescentes quilombolas.

Aqui também se encaixariam as visitas a aldeias indígenas, contudo é necessário cautela nestes casos porque não é incomum a prática da descaracterização da aldeia em função da montagem de um espetáculo para o turista. É extremamente válido quando conseguimos conhecer o cotidiano legítimo da comunidade, mas não é sempre isso que ocorre.

Grupos, Blogs e Comunidades Online

Já fiz dois posts sobre blogueiras negras que atuam na frente da representatividade em viagem; há também o blog Viaja Bi! que compartilha relatos pessoais e recomendações para viajantes LGBT. Além disso é possível encontrar grupos e comunidades online que incentivam a viagem bem como servem como espaços de compartilhamento de histórias.

Exemplos de grupos no Facebook são o Mulheres que viajam sozinhas! e Viajar sozinha dicas & experiências de viagem e o Mochileiros LGBT.

Outras Iniciativas

Há ainda outras maneiras de sedimentar esta união como o estabelecimento de um atendimento e/ou personalização de um serviço para um grupo específico bem como a promoção de campanhas como a Black Travel Movement, que iniciou todo um movimento de estímulo à viagem da comunidade negra.

Assim entendemos que pensar na organização da viagem a partir de grupos com características em comum serve um propósito muito maior do que uma simples estratégia de negócio ou um item numa lista de afazeres.

Quando um grupo que já compartilha uma história passa a compartilhar também momentos, toda a experiência toma uma nova forma e ganha um novo significado. A coletividade faz expandir o que era até então um indivíduo sozinho e assim persistimos juntos.