Uma reflexão sobre medo

Foto capa da postagem sobre medo no blog Negra em Movimento.

“Mas você não tem medo?” 

Você já deve ter ouvido essa pergunta e tenho segurança disso mesmo sem saber com quem falo. Se você é mulher então, essa frase é muito comum em sua vida. Fazendo uma volta no tempo através da memória, é possível que o medo seja uma das primeiras palavras que aprendemos a valorizar mesmo antes de compreender tudo o que ela engloba.

Somos ensinados a ter medo, desde bem pequenos, porque o medo seria o bom senso que evita com que nos machuquemos, seja física, emocional ou psicologicamente. Somos ensinados a entender o medo como uma ferramenta de defesa e essa ferramenta se torna o instrumento que nos incapacita.

A reflexão

Tive uma conversa recente com uma amiga em que ela citava sua sobrinha a pedir sua opinião sobre se deveria fazer algo e ela responder: sim, vai, vamos ver no que dá. Sem pestanejar. O exemplo da vez era alguma atividade física que poderia ou não resultar numa queda, mas o ponto não é esse. 

Como ela mencionou, é possível que outro adulto dissesse à criança para não fazer porque ela poderia cair. É impedir alguém de viver uma experiência baseado em um “e se?” que nunca será respondido a menos que esse alguém viva a experiência. Entende?

Pensei em mim mesma e minha tentativa de aprender a patinar enquanto adulta. Como criança nunca tive a oportunidade e então como adulta conheci alguém que amava patinar e queria me proporcionar a experiência. Tentei, tentei e tentei. Não melhorava. Por quê? Por que tinha medo de cair. 

E se eu caísse? Ou me machucasse? E se eu quebrasse a perna, torcesse o joelho, ganhasse uma fratura exposta? Por que entre todos os “e ses” possíveis eu acreditei tão fielmente nas tragédias a ponto de me impedir de sequer patinar? E se eu alcançasse o sucesso, deslizasse sem esforço e descobrisse uma nova paixão? E se encontrasse um novo hobby que me faria participar de um grupo, conhecer pessoas, encontrar uma nova família?

Eu não me permiti descobrir. Então o “e se” é tudo o que tenho.

O que é medo?

O autor Guy Delpierre medo como uma emoção-choque inerente à condição humana que está relacionada a uma reação diante da percepção de perigo. É claro que a depender da situação, o medo funciona como nosso aliado na preservação de nosso bem estar. Desta maneira, o medo como reação biológica é essencial.

O medo que nos impele a fugir de uma situação que põe em risco nossa integridade física, esse é o medo biológico, principalmente em nosso cenário contemporâneo de violência exacerbada e intolerância. Mas quando o medo se torna cultural, será que não nos faz abdicar de uma parte de nós na manutenção dessa ideologia?

Se tomarmos todas as nossas decisões em volta do medo, não estaríamos dando a ele um protagonismo que não lhe pertence? Quando precisa definir uma ação, será que existe algum som se sobrepondo à sua voz?

Hoje, é o medo que nos rege?

Em virtude do que o mundo externo agora oferta, aprendemos que é melhor não voar e por isso cortamos nós mesmos as nossas asas. Se nascemos com asas, por que a norma agora é se livrar delas? A verdade é que não é, essa é só mais das mentiras que contamos a nós mesmos.

Ao viajar sozinha, com frequência exclamações surpresas ou olhos arregalados me encontram. Ao decidir ir trabalhar a bordo de um cruzeiro turístico, as reações são mais ou menos as mesmas. Como tenho coragem de voar para longe com tantos perigos à espreita?

Toda vez eu me pergunto como temos coragem de limitar nossas possibilidades com o tamanho do potencial que temos. Como ousamos não dar o melhor de nós quando temos o dom da vida nas mãos?

Os perigos existirão sempre e em combate à eles devemos assumir cuidados, não decidir se isolar. Se o cuidado for evitar um lugar, tudo bem, evite somente este lugar e não todos. Afaste a pessoa que lhe faz mal, não qualquer relacionamento. Evite o erro que cometeu, não todas as possibilidades de acerto.

Fuja do que verdadeiramente lhe faz mal, não o bicho papão que lhe disseram estar no armário. Talvez, na penumbra do seu quarto, em qualquer noite dessas, você se encherá de coragem, abrirá o armário e descobrirá que não há monstro algum, era só um bloqueio emocional que tentava lhe impedir de desvendar a sua verdade.

O que o medo já te impediu de fazer?

Se você é mulher viajando sozinha, talvez se interesse em ler a postagem sobre acomodações SÓ para mulheres ao redor do mundo.